Por que o seu médico pede o exame de FUNDO DE OLHO?

fundo de olho
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Olá, pessoal!

Devo dizer que fico bastante feliz quando as situações que ocorrem no consultório geram inspiração para artigos aqui do blog. Às vezes, o médico está muito acostumado a certos aspectos básicos da rotina oftalmológica e acaba esquecendo-se de que, para os leigos, esses aspectos não são tão óbvios assim.

Essa semana, me ocorreu que a grande maioria dos pacientes que me procura em consultório, encaminhados por outros especialistas com o intuito de realizar o exame de fundo de olho, não sabem o motivo pelo qual o exame foi pedido.

Pois essa dúvida acaba agora.

Fundo de Olho o que é?

Para quem já o fez, isso não vai parecer novidade, mas o exame de fundo de olho nada mais é do que o médico oftalmologista visualizar diretamente a retina – que fica localizada literalmente no fundo do olho.

Vamos relembrar:

 

glaucoma - anatomia   Fundo de olho normal

 

 

Enxergando através da pupila, podemos ver a retina com detalhes. Para que toda ela seja bem visualizada até a sua periferia, é necessário dilatar a pupila com colírios específicos para este fim (processo que pode demorar até 40 minutos, variando de pessoa para pessoa).

Na foto à direita, podemos destacar a Mácula, região mais nobre da retina, responsável pela nossa visão central, o Nervo Óptico, mais precisamente a inserção dele no globo ocular e os Vasos Sanguíneos que nutrem a retina.

O médico oftalmologista utiliza lentes especiais para conseguir essa boa visualização e, no geral, é necessária uma boa iluminação – o que pode gerar um certo desconforto em pessoas com muita fotofobia (sensibilidade à luz).

Por que realizar o exame de Fundo de Olho?

Considerando que sou oftalmologista e que este blog é centrado em temas oftalmológicos, é claro que eu poderia falar sobre como o exame de fundo de olho faz parte da rotina normal de consultas, uma vez que diversas doenças oculares podem ser diagnosticadas através dele, como o Glaucoma ou a Degeneração Macular.

Porém, hoje quero abordar como o exame de fundo de olho cria uma interseção entre a oftalmologia e as demais especialidades médicas.

Uma série de doenças sistêmicas podem gerar alterações na retina, muitas vezes antes mesmo da pessoa apresentar qualquer outro sintoma. É por esse motivo que frequentemente ouve-se falar de como esse exame pode dar um diagnóstico a alguém que não fazia idéia de que apresentava alguma alteração sistêmica.

No entanto, o mais comum é que o exame de fundo de olho seja algo complementar à rotina de acompanhamento de um paciente que já tenha um diagnóstico ou, ao menos, a suspeita de um, sendo um poderoso aliado na obtenção de informações.

 

exame de fundo de olho

 

Imagine uma doença sistêmica, ou seja, que pode afetar o corpo todo, e que essa doença provoca alterações bastante danosas nos pequenos vasos sangüíneos de vários órgãos como os rins, o coração, o cérebro, etc. Para que as circulações desses órgãos possam ser visualizadas e estudadas, seria necessário submeter o paciente a um exame invasivo, com o uso de contraste venoso e imagem radiológica.

Agora me diga: a chance dessa doença sistêmica afetar igualmente a circulação de vários órgãos é grande, então, será que existe algum que possa ser visualizado diretamente, sem o uso de exames invasivos?

Acabamos de ver acima que sim. Alterações nos vasos da retina nos dão uma boa dica sobre como está a circulação em outros órgãos importantes. É por isso que, antes de lançarem mão de exames mais complexos, os especialistas solicitam uma avaliação ao oftalmologista.

Vamos a alguns exemplos?

Fundo de olho na Diabetes

A Diabetes é uma doença que afeta a microcirculação de vários órgãos nobres e das extremidades do nosso corpo, como dedos das mãos e dos pés. No acompanhamento desta doença, a rotina ao menos anual do exame de fundo de olho deve ser mantida, já que ela provoca diferentes alterações na retina, desde a sua fase mais leve, até as fases mais avançadas, nas quais a visão pode ser perdida e, provavelmente, outros órgãos também estão seriamente afetados.

fundo de olho retinopatia diabetica               fundo de olho retinopatia diabetica

A primeira foto mostra alterações de fases não tão avançadas, como microaneurismas e pequenos pontos de hemorragia na retina. A segunda foto mostra um quadro de retinopatia diabética avançada, com grandes áreas de hemorragia, não apenas na retina, mas com vazamento para o Vítreo e membranas alterando a anatomia da mácula.

Fundo de olho na Hipertensão Arterial

Assim como a Diabetes, a Hipertensão Arterial também provoca alterações nos vasos sanguíneos e também pode afetar múltiplos órgãos, porém, o mecanismo de dano aos vasos é diferente.

Ela também gera um espectro de alterações na retina de acordo com a fase de evolução da doença. Sendo assim, o oftalmologista pode perceber desde vasos sangüíneos afinados em uma fase bem inicial, até grandes hemorragias e mesmo oclusões de vasos da retina.

 

fundo de olho na retinopatia hipertensiva

 

Outros bons exemplos do uso do exame de fundo de olho é o diagnóstico diferencial de doenças infecciosas, como a Toxoplasmose e o Citomegalovírus (fotos abaixo).

 

toxoplasmose fundo de olho                  fundo de olho citomegalovirus

 

Ou, ainda, na detecção de possíveis efeitos colaterais de alguns tratamentos, como no uso da Cloroquina em pacientes que possuem Lúpus. Veja na foto abaixo a alteração na mácula, chamada “olho de boi”. Felizmente, hoje em dia, utiliza-se mais a Hidroxicloroquina, que apresenta uma incidência muito menor desse tipo de alteração.

 

fundo de olho lupus

Eu poderia dissertar por horas a respeito do exame de fundo de olho, porém, como meu intuito não é escrever um Tratado de Oftalmologia, mas orientar a quem desconhecia os motivos para realizar esse exame, vou ficando por aqui, na esperança de que essas informações possam conscientizar cada vez mais pessoas quanto à importância da avaliação oftalmológica periódica.

 

Um grande abraço e até a próxima :)

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Posted on 15 de fevereiro de 2017 in Curiosidades Gerais, Retina

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