GLAUCOMA: o vilão silencioso

glaucoma
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“Glaucoma…já ouvi esse nome várias vezes, mas não sei ao certo do que se trata.”

 

Quantas vezes já atendi pacientes que, ao serem indagados sobre diagnóstico prévio de Glaucoma ou casos na família, simplesmente não sabiam o que era. A falta de conhecimento sobre essa doença é tão comum que arrisco dizer que é a regra em mais de 50% dos pacientes que atendo diariamente.

 

“Mas, qual o problema de não conhecer a respeito dessa doença?”

 

A grande maioria das doenças, oftalmológicas ou não, produzem algum tipo de sintoma, uma pista por assim dizer, de que estão presentes. Os pacientes procuram seus médicos com queixas específicas. O Glaucoma, porém, é – como eu o chamei no título do artigo – um vilão silencioso. Imagine uma doença que não embaça a visão, não provoca dor, não gera coceira, não deixa o olho vermelho…difícil percebermos algo de errado, certo?

Nesse caso, desconhecer a existência dessa doença e a importância de investigá-la mesmo em quem não apresenta nenhum sintoma ocular, pode custar a visão.

Mas, afinal, o que é Glaucoma?

O Glaucoma é uma doença que acomete o nervo da visão (o nervo óptico). Por isso, é o que chamamos de uma neuropatia óptica – neuropatia é toda doença que acomete algum nervo, nesse caso, o nervo óptico.

Observe a foto abaixo:

 

glaucoma - anatomia

A Retina é a região ocular responsável pela captação da imagem. Apesar de ser um tecido bastante fino, ela ainda é dividida em várias camadas. Uma dessas camadas é chamada Camada de Fibras Nervosas. Todas as fibras nervosas da retina convergem para formar o Nervo Óptico. Este, por sua vez, carrega toda a informação da visão para o nosso cérebro.

Fica fácil entender, então, porque uma doença que provoca dano ao nervo óptico pode causar perda visual.

Um nervo óptico normal, saudável, apresenta algumas peculiaridades na sua anatomia. Repare no esquema abaixo que, ao visualizarmos o fundo de olho, percebemos que os vasos sanguíneos que nutrem a retina chegam ao nosso olho pelo interior do nervo óptico. Além disso, esse nervo não é inteiramente maciço. Apresenta, no seu centro, uma região que normalmente não é ocupada por fibras nervosas, um “umbigo” central, chamado escavação (região mais clara na foto). Em um nervo saudável, essa escavação não ocupa mais do que 50% da área total do nervo e é cercada por um anel (ou rima) que contém as fibras nervosas.

glaucoma - anatomia

 

No Glaucoma, a principal alteração é a perda das fibras nervosas do nervo óptico. Infelizmente, a fibra nervosa é um tipo de célula que não consegue regenerar-se, ou seja, uma vez morta, não haverá uma nova célula produzida para ocupar o seu lugar e realizar a sua função.

Quando um número considerável de fibras nervosas é perdido, a visão começa a ser afetada. Como essas células não se regeneram, mesmo com o tratamento da doença, o prejuízo visual é irreversível.

Veja na imagem abaixo o aspecto de um nervo óptico com Glaucoma. Perceba como a escavação central está aumentada, ocupando uma área maior do nervo óptico. O nervo não aumenta de tamanho, portanto, quando a escavação está maior, significa que o anel de fibras nervosas reduziu, ou seja, fibras nervosas foram perdidas.

Nervo Óptico no Glaucoma

 

 

Caso não seja realizado o diagnóstico e instalado o tratamento adequado, a lesão continuará a progredir, mais fibras nervosas serão perdidas e a visão cada vez mais comprometida, podendo chegar à cegueira total.

Glaucoma avançado

Glaucoma avançado

Repare, no esquema da esquerda, como a perda das fibras provoca o aumento da escavação e, na foto da direita, a perda quase total do anel (rima) de fibras nervosas.

A cegueira no Glaucoma

A cegueira causada pelo Glaucoma tem um caráter progressivo, ou seja, tem uma instalação lenta. Dificilmente conseguimos perceber o início dessa perda visual, pois ela não causa embaçamento da visão.

A visão periférica é a primeira a ser acometida no Glaucoma e, portanto, é uma alteração difícil de percebermos no dia-a-dia. Geralmente, quando o paciente refere uma redução da sua visão periférica (por exemplo, tropeça em degraus e no meio-fio da calçada porque não os percebe mais na visão periférica), significa que a lesão do nervo óptico está bastante avançada. Esse déficit inicial pode ser quantificado por meio de exames complementares específicos (falaremos mais sobre isso nos próximos artigos).

Com a perda progressiva das fibras nervosas e o aumento da escavação do nervo óptico, o “túnel de visão” fecha-se cada vez mais, até a perda total da visão.

visão tubular no glaucoma

A foto acima representa o que chamamos de visão tubular no Glaucoma avançado. Infelizmente, como expliquei anteriormente, a perda visual provocada por essa doença, seja leve ou avançada, é irreversível.

O que causa o Glaucoma?

Vários aspectos da saúde ocular podem influenciar no surgimento e evolução do Glaucoma, porém, a grande maioria dos casos ocorre por um aumento da pressão ocular.

Isso mesmo, pressão ocular. Entenda: o nosso olho não é totalmente oco. Vamos voltar à foto da anatomia do olho:

glaucoma - anatomia

Para facilitar o estudo da anatomia, podemos dividir o olho em regiões. Existe uma região formada pelo espaço entre a córnea e a íris, chamada Câmara Anterior. Ela é preenchida por um líquido chamado Humor Aquoso (indicado na foto). Este, por sua vez, está sempre sendo produzido em uma região e escoado por outra, renovando-se e mantendo um equilíbrio.

Quando existe algum desequilíbrio entre produção e escoamento, provocando acúmulo do Humor Aquoso, a pressão intraocular eleva-se.

As fibras nervosas do nervo óptico são extremamente sensíveis a essa variação da pressão ocular. Quando há um aumento da pressão, o processo de morte celular é desencadeado, provocando perda das fibras.

A essa altura, já podemos entender porque o Glaucoma é a principal causa de cegueira no mundo. Nos próximos artigos, vamos nos aprofundar nos conhecimentos sobre diagnóstico e tratamento desta doença.

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Posted on 21 de dezembro de 2015 in Glaucoma

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