GLAUCOMA: diagnóstico e tratamento

Tratamento do Glaucoma
Compartilhe!

Olá, novamente.

No artigo de hoje, vamos conversar sobre como é realizado o diagnóstico do Glaucoma, quais são os critérios que o médico oftalmologista leva em consideração para iniciar o tratamento e como este é feito.

Este será o fechamento da nossa série inicial de artigos sobre Glaucoma. Caso você tenha perdido os anteriores, não deixe de ler aqui sobre o que é exatamente esta doença, leia aqui sobre quais são os fatores de risco e, também, aqui sobre os possíveis tipos de Glaucoma.

Tudo certo? Então vamos dar seguimento.

O diagnóstico do Glaucoma

No dia-a-dia do consultório, é muito frequente que o oftalmologista se depare com algum quadro ainda não diagnosticado de Glaucoma. Quase sempre, esse disgnóstico é recebido com muita surpresa pelo paciente, uma vez que, conforme explicado nos posts anteriores, essa é uma doença assintomática.

No artigo “Exame de Vista – o que esperar de uma consulta oftalmológica” ressaltei a importância de cada passo da consulta básica com o oftalmologista. No caso do diagnóstico de Glaucoma, os exames da medida da pressão ocular (sigla: PIO) e o exame de fundo de olho recebem maior importância e destaque, bem como alguns exames complementares, citados a seguir.

Medida da pressão ocular

Medida da Pressão Ocular

 

Conforme já debatemos anteriormente, a PIO é o principal fator de risco para o desenvolvimento desta doença. Não é à toa que um dos critérios diagnósticos do Glaucoma é a PIO média acima de 21 mmHg.

Claro que existem exceções. Muitos pacientes acabam tento a PIO medida em consultório abaixo de 21 mmHg e, mesmo assim, recebem diagnóstico de Glaucoma. O que ocorre é que esses pacientes certamente sofrem flutuações da PIO para valores mais elevados, o que torna a sua PIO média acima de 21 mmHg.

 

Exame de Fundo de Olho

exame de fundo de olho

No exame do fundo de olho, seja ele com a pupila dilatada (midríase) ou não, o oftalmologista utiliza uma lente acessória para poder visualizar com clareza toda a Retina do paciente. Nesse momento, é bom fazermos uma pausa e relembrar-mos na imagem abaixo onde é a Retina:

glaucoma - anatomia

 

Esse exame é importante porque permite o estudo detalhado do Nervo Óptico, que tem sua origem na Retina. Comentamos no artigo inaugural sobre Glaucoma que esta é uma doença do nervo óptico, lembra?

Assim, a análise deste permite identificar as alterações características de casos iniciais ou avançados de Glaucoma.

glaucoma - anatomia

 

Ao estudarmos:
– o tamanho do nervo e da sua escavação
– o anel neural (ou rima neural)
– a região de retina adjacente ao nervo
– o padrão dos vasos sanguíneos nesse local

podemos suspeitar desta doença ou confirmá-la.

glaucoma

Surge, desta forma, o segundo critério diagnóstico do Glaucoma: dano glaucomatoso característico no nervo óptico, com escavação maior que 50% da área do disco.

Campo Visual Computadorizado

Campo Visual Computadorizado

Aqui já estamos entrando na parte de exames complementares. Esse exame não faz parte da consulta oftalmológica básica, mas é o principal exame complementar para a investigação do Glaucoma.

Como expliquei em artigos anteriores, o Glaucoma é uma doença essencialmente assintomática. O dano visual que ele provoca, inicia-se na periferia da visão, então é muito difícil de ser percebido no dia-a-dia de cada um. No entanto, o exame do Campo Visual Computadorizado consegue testar a sensibilidade de todo o campo visual, inclusive o periférico, detectando, assim, a perda da sensibilidade característica desta doença.
Veja na foto abaixo um exemplo de campo visual normal versus um exame típico de glaucoma – a mancha escura marca a perda da sensibilidade visual.

Campo Visual Computadorizado

 

O defeito do campo visual típico do glaucoma é o terceiro critério diagnóstico dessa doença.

Outros Exames Complementares

Quando o “tripé” [fundo de olho + medida da PIO + campo visual] não é suficiente para estabelecer um diagnóstico, ou mesmo quando o oftalmologista quer realizar uma melhor classificação do tipo de doença, podemos lançar mão de outros exames.

Prefiro não me aprofundar muito nesse tema para que o nosso bate-papo não fique muito técnico, mas podemos destacar:

Gonioscopia

Gonioscopia: exame que estuda o Ângulo da Câmara anterior. Através de uma combinação de lente e espelhos, o oftalmologista consegue visualizar essa estrutura. Lembra que falamos no último artigo sobre como esse ângulo pode ser fechado ou aberto e isso influenciar na dificuldade de controle da doença?

Paquimetria: no artigo sobre fatores de risco do Glaucoma, mencionei sobre como a espessura da córnea pode influenciar na medida do valor da PIO. A paquimetria é justamente o cálculo da espessura da córnea. O exame é totalmente indolor, uma vez que é realizado em vigência de anestesia tópica com colírio.

Paquimetria

análise da camada de fibras nervosas

Análise da Camada de Fibras Nervosas: tá começando a complicar, né? Vou simplificar. Apesar da nossa Retina ser um tecido bem fininho e frágil, ela ainda consegue ser dividida em camadas, uma delas é a camada de fibras nervosas (sigla: CFN). A união das fibras nervosas é o que forma o Nervo Óptico, portanto, é fácil entender porque a CFN pode sofrer alterações no Glaucoma.

É importante ressaltar que o diagnóstico do glaucoma, bem como o seu acompanhamento, dependem de avaliações periódicas, nas quais podem ser documentadas as alterações progressivas dessa doença. Só assim conseguimos definir se a doença está em evolução ou bem controlada pelo tratamento, se o caso possui mais gravidade ou não.

Tratamento do Glaucoma

pingando colirio

Após estabelecido o diagnóstico de Glaucoma, o próximo passo é iniciar o tratamento desta doença. Nesse momento, é importante relembrar o conceito de Doença Crônica – uma doença que não pode ser curada, mas que pode ser controlada, de modo que não ofereça maiores danos à vida do paciente.

O Glaucoma é uma doença crônica. Uma vez iniciado o tratamento, há grandes chances de que este acabe sendo contínuo. No entanto, quanto mais cedo a doença for descoberta e o tratamento iniciado, maiores são as chances de obter o seu controle adequado e impedir a sua progressão. Um paciente pode ter Glaucoma e nunca sofrer nenhuma consequência visual grave caso realize o tratamento adequado.

“Ok, doutora. Mas como é realizado esse tratamento?”

Via de regra, o tratamento do Glaucoma é realizado com o uso de colírios que chamamos hipotensores oculares. Eles recebem esse nome porque a sua função é a de redução da pressão ocular. A grande maioria dos estudos aponta a redução da PIO como a maneira mais eficiente de controlar a progressão do dano glaucomatoso.

“Entendi. Mas, então, qual o valor adequado da pressão ocular para o controle do Glaucoma?”

A melhor resposta para essa pergunta é: depende! Veja abaixo:

Nervo Óptico no Glaucoma

 

 

Glaucoma avançado

Quanto mais avançada a lesão glaucomatosa (foto da direita), maior deve ser a redução da pressão ocular conseguida pelo tratamento. Em lesões não tão avançadas (foto da esquerda), a redução da PIO para o controle da doença não precisa necessariamente ser drástica.

 

Os diferentes níveis de redução da pressão ocular são conseguidos através do uso de colírios mais ou menos potentes ou, ainda, combinações de colírios diferentes. O oftalmologista realiza um verdadeiro “ajuste fino” do tratamento para que cada paciente atinja a sua pressão alvo, ou seja, a PIO ideal para que a doença não progrida. Por exemplo, em casos mais brandos, podem ser aceitas PIOs alvo em torno de 15mmHg. Já em casos mais graves, o ideal é atingir uma PIO alvo de 12 mmHg ou mais baixas.

Daí a importância de avaliarmos caso a caso, mas, no geral, uma redução de 30% do valor da pressão ocular inicial já traz benefícios aos pacientes.

Cirurgia e Laser no Glaucoma

De forma geral, o que buscamos é o controle clínico do Glaucoma, ou seja, tratar apenas com colírios.

Cirurgia no Glaucoma

Naqueles casos em que a doença apresenta difícil controle medicamentoso, nos quais já foram tentadas diferentes associações de colírios com uma baixa resposta e, especialmente, se comprovada a evolução da doença mesmo em vigência de um tratamento bem realizado, a opção cirúrgica pode ser considerada para promover a redução da pressão ocular.

É muito importante que os pacientes candidatos à cirurgia de glaucoma entendam que, ao contrário de uma cirurgia de catarata, as técnicas cirúrgicas utilizadas no glaucoma não conseguem recuperar a visão que já foi perdida devido a essa doença. Infelizmente, os conhecimentos médicos de hoje ainda não permitem a regeneração de fibras nervosas perdidas. A cirurgia do Glaucoma é chamada Trabeculectomia e é realizada, na grande maioria das vezes, sob anestesia local.

 

Em alguns casos, especialmente nos Glaucomas de Ângulo Fechado (lembra que comentei dele no artigo anterior?) um tratamento a laser pode ser útil na redução da pressão ocular – uma vez que o “ralo está entupido” quando o ângulo é fechado, a Iridotomia por Yag-Laser é capaz de criar um pequenino pertuito através da íris para que o Humor Aquoso volte a fluir livremente e não mais se acumule na Câmara Anterior provocando aumento da PIO.

O procedimento é relativamente simples, realizado em ambulatório, porém não substitui o efeito mais duradouro da cirurgia.

Bom, chegamos ao fim da nossa série inicial sobre Glaucoma. Acredito que você esteja com uma visão bem mais ampla a respeito desta doença e sabendo que, neste caso, o melhor “tratamento” é a prevenção. Não deixe de visitar regularmente o seu médico oftalmologista de confiança para não “papar mosca” e, às vezes, deixar de diagnosticar o Glaucoma ainda no seu início.

 

Até a próxima :)

Compartilhe!

Posted on 23 de fevereiro de 2016 in Glaucoma

Share the Story

About the Author

Back to Top